Um dia fora dos terrenos de Hogwarts seria revigorante, até mesmo Arnold teria que admitir. Naturalmente não estava tão deslumbrado com a perspectiva daquele passeio quanto a grande maioria dos alunos que cursavam a disciplina pelo simples fato de que não veria nada que já não visse em seu cotidiano. Era nascido-trouxa e residia em uma cidadela nos arredores de Londres, portanto não havia muito o que pudesse apreender de novo com aquela excursão. Deveria ter pensado nisso antes de se inscrever na matéria, é verdade. Mas lhe pareceu uma boa ideia na época já que como nascido-trouxa, Estudos dos Trouxas provavelmente garantiria créditos extras para seu histórico acadêmico. No entanto, ao longo do semestre a aula havia se tornado particularmente maçante, e até mesmo um pouco risível já que mais de uma vez se vira obrigado a corrigir a professora.
Mas não naquela quarta-feira em especial. Os alunos do terceiro ano para cima que optaram pela disciplina eletiva receberam permissão para faltar o restante das aulas do dia e desfrutar do que fora descrito pela professora como “o inebriante mundo trouxa”. O que exatamente havia de inebriante Arnold ainda não havia descoberto ao longo de todos aqueles dezessete anos de sua vida. Conteve um riso de desdém diante do brilho no olhar de muitos de seus colegas, sedentos por um contato mais imediato com aquele mundo sobre o qual apenas se debruçavam em seus livros. Imaginou que a sensação seria parecida com a que ele sentiu quando descobriu o mundo de possibilidades da magia no seu primeiro ano em Hogwarts, então talvez não coubesse a ele julgar. Além do mais, ainda que não esperasse muito do passeio, era bom tirar um dia de folga - até para alguém aplicado nos estudos como Arnold.
Diante da pequena introdução da professora, Arnold se adiantou e se agarrou a um espaço vago das folhas do jornal e esperou que a chave de portal fizesse sua mágica. Não demorou muito para que fosse acometido por aquele misto de sensações na boca do estômago que sabia que resultaria em uma náusea posteriormente. Aquilo sim era inebriante, mesmo que não o fosse de uma forma positiva. Quando a estranha vertigem finalmente o deixou, Arnold não teve chance de se recompor pois logo seu corpo encontrou o chão em um pequeno baque. Alguém havia se desequilibrado ao seu lado e fizera menção de arrastá-lo junto. Demorou alguns segundos para que a sensação de desorientação passasse, mas quando passou, Arnold pôs-se de pé ainda levemente transtornado e então ergueu a mão instintivamente para ajudar a colega a se levantar.
- Chaves de portal. Quem achou que isso era uma boa ideia? - Murmurou para ela com um sorriso cordial estampando seu rosto. A menina não era de seu ano, mas já a avistara diversas vezes pelos corredores da escola, e mesmo que sua memória não tivesse gravado o seu nome om precisão, seu rosto era difícil de esquecer. - Baburge, certo? - Indagou incerto, com uma sobrancelha arqueada mas a mesma expressão polida em seu rosto.
- Estão todos aqui? - Pôde ouvir a voz da professora destoar das demais enquanto ela verificava se ninguém havia ficado. Só então Arnold tirou alguns segundos para olhar ao redor a fim de constatar para onde exatamente haviam sido transportados. A atmosfera melancólica e cinzenta era inconfundível, já estavam em Londres. Mas não em nenhuma parte particularmente conhecida da cidade, pelo contrário, estavam num beco deserto que fedia a urina e tabaco. Ah, a boa e velha Londres.
